Susana Pimentel Pinto Giannini
Maria do Rosário Dias de Oliveira Latorre
Leslie Piccolotto Ferreira
O professor ocupa lugar privilegiado na sociedade, com papel fundamental no
processo educativo e desenvolvimento humano. Entretanto, a profissão tem sofrido
progressivo desgaste social, por inúmeras razões e, como resultado, há crescente
associação da atividade docente com várias morbidades, sendo os distúrbios
psíquicos e vocais as principais causas de afastamento do trabalho1
. A importância
social destes afastamentos não se restringe aos aspectos econômicos, que não são
desprezíveis, pois o distanciamento da atividade pedagógica conduz o docente à
sensação de insegurança e isolamento2,3. Destaca-se, além do próprio impacto vocal,
o impacto emocional, que gera estresse e ansiedade, e coloca em risco a carreira e a
sobrevivência do educador4
. Ao perder a voz, o professor perde a possibilidade de
manter-se em sua função, perde sua identidade profissional. Pesquisas na área
indicam consistente associação entre o trabalho docente e a ocorrência do distúrbio de
voz entre os educadores, pela presença de fatores de risco no ambiente escolar5,6,7,8
,
especialmente em escolas infantis e fundamentais9
. Os fatores de risco para o
adoecimento vocal mais comumente destacados são de cunho biológico ou relativos
aos hábitos individuais, como falta de educação vocal apropriada, sendo poucos os
que buscam os fatores associados à forma e à intensidade com que o trabalho
docente é executado10. Há de se considerar, cada vez mais, os aspectos
socioculturais que têm origem nas formas de organização e administração do trabalho
docente como determinantes do adoecimento vocal do professor. Aspectos do
ambiente físico, químico e biológico afetam psiquicamente o trabalhador,
principalmente se intensificados por tempo de exposição ou ritmo da organização do
trabalho11. Com este estudo, espera-se avançar na identificação destes aspectos do
trabalho docente como determinantes do estresse no trabalho e da perda da
capacidade funcional associados ao adoecimento vocal do professor. Objetivo.
Determinar associação entre distúrbio de voz e estresse no trabalho e perda da
capacidade de trabalho em professoras do município de São Paulo. Método. Estudo
caso-controle pareado por escola. O grupo caso foi constituído por professoras com
alteração nas avaliações de voz e laringe; o grupo controle, por professoras das
mesmas escolas do grupo caso, sem alteração nas avaliações. Optou-se por compor o
grupo controle por professoras da mesma escola para reduzir possível viés de seleção
e garantir máxima semelhança com o grupo caso, com mesma probabilidade de
exposição aos fatores de risco físicos, químicos e biológicos do ambiente de trabalho
escolar. Foram aplicados os questionários Condição de Produção Vocal-Professor
(CPV-P), para caracterização da amostra12; Job Stress Scale (JSS), para avaliar o
estresse no trabalho decorrente da interação entre demanda (qualquer tipo de pressão
de natureza psíquica, quantitativa ou qualitativa, para realização de um trabalho) e
controle (possibilidade que o trabalhador tem de utilizar as habilidades intelectuais
para realizar seu trabalho e a autoridade que possui para tomar decisões)13; e Índice
de Capacidade para o Trabalho (ICT), que considera exigências físicas e mentais do
trabalho, estado de saúde do trabalhador e seus recursos físicos e mentais14
. A
presença de distúrbio de voz foi variável dependente; o estresse no trabalho, medido
pelo JSS, e a capacidade para o trabalho, medida pelo ICT, foram variáveis
independentes; foram variáveis de controle as características sociodemográficas, de
estilo de vida e de ambiente de trabalho. Na análise estatística, utilizou-se teste de quiquadrado
e modelos de regressão logística para estimar a associação entre as
variáveis independentes e o distúrbio de voz. A pesquisa foi aprovada pelos Comitês
de Ética em Pesquisa da Faculdade de Saúde Pública – USP e do Hospital do
Servidor Público Municipal-SP (nº 173/07 e nº 101/07). Resultados. Os resultados do
CPV-P indicam que os grupos caso e controle são comparáveis, sem diferenças
significativas nos fatores sociodemográficos, estilos de vida e aspectos do ambiente
de trabalho. A única variável estatisticamente associada ao distúrbio de voz foi
acústica que, por esta razão, foi adicionada aos modelos finais para ajuste, assim
como idade. Em relação aos aspectos vocais, todas as variáveis apresentaram
diferença estatisticamente significativa entre os grupos caso e controle, o que revela
que os participantes se distinguem especificamente pela presença do distúrbio de voz.
Dados do JSS revelam que 78,8% do grupo controle concentram-se nos menores
níveis de demanda, enquanto 69,3% do grupo caso situam-se nos níveis superiores
(p=0,019). Em relação ao controle do trabalho, a situação é inversa: professoras do
grupo controle manifestam maior autonomia na realização de sua tarefa do que as do
grupo caso (p<0,034). Toda situação em que há baixo controle do trabalho pode
produzir algum efeito na saúde advindo de perda de habilidade e desinteresse.
Entretanto, a relação encontrada neste estudo que associa grande demanda a baixo
controle do trabalho gera alto desgaste e é a mais nociva ao trabalhador15. Nesta
situação, encontra-se a maioria das reações adversas das exigências psicológicas,
tais como fadiga, ansiedade, depressão e doenças físicas16. Há, no trabalho docente,
constante sobreposição de tarefas, como atendimento individual ao aluno, controle da
turma ou preenchimento de instrumentos dentro da sala de aula3
. Ao mesmo tempo
em que aumenta a pressão e o volume da tarefa, o professor perde,
progressivamente, o controle de suas atividades, que se tornam múltiplas e
complexas, com simultaneidade de eventos, imprevisibilidade e imediatismo17. Esta
dinâmica de forças contrárias conduz o professor ao adoecimento e, principalmente, à
inviabilidade de manter-se na função docente. Assim como estresse, o conceito de
capacidade para o trabalho está ancorado na interação das exigências do trabalho e
dos recursos físicos e mentais do trabalhador, representando uma medida de
envelhecimento funcional18. Neste estudo, na análise de associação realizada com
todas as variáveis independentes, as categorias de capacidade para o trabalho baixa
(OR=8,0, p=0,001) e moderada (OR=5,9, p=0,001) mostram forte associação
estatística ao distúrbio de voz. Na análise múltipla com a interação controle/demanda
de estresse no trabalho (JSS) e capacidade para o trabalho (ICT), verifica-se
associação nas categorias baixa (OR=9,5, p=0,001) e moderada (OR=6,7, p<0,001)
capacidade para o trabalho. Observa-se, nas análises realizadas com os dados do
ICT, presença da relação dose-resposta, ou seja, quanto menor a de capacidade para
o trabalho, mais forte é a associação ao distúrbio de voz. Este fator é um dos mais
robustos indicadores de relação causal19. Os resultados indicam um envelhecimento
funcional precoce nas professoras com distúrbio de voz, independente do declínio
associado à idade. Aspectos referentes à saúde são determinantes para a capacidade
para o trabalho e, neste caso, o sintoma vocal tem papel preponderante. Os
educadores dependem essencialmente da voz para realizar o seu trabalho e o
desenvolvimento do distúrbio de voz gera progressivo distanciamento da docência.
Professores têm mais limitação no desempenho profissional e nas interações sociais
que não professores, sendo que um em cada três professores é levado a reduzir suas
atividades letivas devido ao distúrbio de voz, fato que interfere na satisfação, no
desempenho e na efetividade do trabalho docente20. Na impossibilidade de trabalhar, o
afastamento da docência é concretizado por faltas, licenças ou readaptação funcional,
recurso no ensino público quando o professor não apresenta condição física ou mental
de permanecer na atividade que exerce. Ao ser readaptado, o professor afasta-se de
suas atividades pedagógicas, assumindo outra atividade em que não precise utilizar a
voz. Essa indicação médica, que visa à diminuição do esforço vocal, acaba sendo um
benefício menor perto da dificuldade de retorno às atividades letivas. Esse
afastamento o distancia das práticas pedagógicas e, consequentemente, do contato
com alunos e colegas. Além disso, o afastamento de um professor da escola acarreta,
ainda, aumento de demanda para os outros que permanecem, com reordenamento
dos alunos do colega que se ausentou em suas salas3
. Ao deixar de “utilizar a voz”, o
professor também deixa de estar na posição de quem tem a palavra, de sustentar um
lugar de saber. Por outro lado, enquanto permanece readaptado, também se afasta
das condições de indisciplina, violência e estresse da sala de aula. O recurso da
readaptação funcional para o professor como forma de poupar o uso da voz, cada vez
mais, tem sido um caminho sem volta. Ao reassumir a sala de aula, haverá não
apenas a utilização da voz em período prolongado, mas principalmente, retorno àquela
situação desgastante anteriormente descrita21. Se o trabalho tem um sentido próprio
para o professor, investido de afetividade, projeção de valores e dignidade, o
reconhecimento é fundamental para a mobilização subjetiva que permite a
manutenção do comprometimento e criatividade no trabalho22. A falta de
reconhecimento da dinâmica coletiva implícita ao adoecimento vocal do professor
certamente contribui para a perda da capacidade para o trabalho e consequente
afastamento da docência. Ainda que o delineamento de caso-controle não permita
estabelecer relação causal entre exposição e efeito na saúde, considera-se que os
resultados do estudo podem embasar a construção de políticas públicas que visem à
promoção de saúde do professor. Conclusões. Há associação entre distúrbio de voz
e alto desgaste na interação demanda/controle de estresse no trabalho, caracterizada
por alta demanda associada a baixo controle. As categorias baixa e moderada
capacidade para o trabalho mostram-se associadas ao distúrbio de voz, o que indica
um envelhecimento funcional precoce, independente do declínio associado à idade.
Descritores: distúrbios da voz, saúde ocupacional, docentes, epidemiologia
Caroline
Este blog tem como finalidade descrever sobre os seguintes assuntos: • Cultura Organizacional e Mudança; Estresse e Bem-estar no ambiente de trabalho; Estresse no trabalho. • Caracterização dos agentes estressores no trabalho • O bem-estar nas organizações e • Qualidade de Vida no Trabalho.
Autoras: Brenna Thuanne; Caroline Rodrigues; Rúbia Mello e Yasmin Franklin.
- Comportamento Sistema Organizacional
- Comportamento organizacional: Nós traz a importância do desenvolvimento do comportamento humano dentro de uma organização, que busca tratar de forma com exclusividade dos seus indivíduos, grupos e de toda sua esfera, sobre o comportamento dentro das organizações, para que haja atitudes e motivações, assim promover a melhoria da eficácia organizacional, tá se tornando fator competitivo; pensar no contingencial. O campo de estudos que investiga o impacto que indivíduos, grupos e a estrutura organizacional têm sobre o comportamento das pessoas dentro das organizações. Com propósito de utilizar esse conhecimento para melhorar a eficácia organizacional. Mais especificamente, falaremos aqui neste blog sobre Comportamento do Sistema Organizacional.Os principais tópicos são mudança e estresse. Existem forças ambientais que exigem que as empresas mudem, um porquê de as pessoas e organizações frequentemente resistirem a mudanças e maneiras de superar essas resistências, É preciso falar também das fontes de estresse e suas consequências. Esperamos que seja útil para seu crescimento pessoal e de sua empresa!
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